Segunda-feira, 5 de Abril de 2010
Economia política é mais previsível que a economia real

Quem tiver lido a comunicação de Guillermo de la Dehesa sobre "Fiscal and Competitive Tensions within the Euro Area" apresentada no III diálogo monetário da Comissão do Parlamento Europeu dos Assuntos Económicos e Monetários, em 22 de Março, teria observado uma semelhança notável com a Declaração dos Chefes de Estado e de Governo da Zona Euro, de 25 de Março, sobre a acção coordenada a tomar para salvaguarda da estabilidade financeira da Zona Euro como um todo (reconhecendo que a Grécia não havia ainda solicitado apoio financeiro). A solução recomendada era um pacote que envolvia substancial financiamento do FMI e um montante maioritário de financiamento Europeu, através de empréstimos bilaterais de Estados Membros. Não importa a cuidadosa linguagem nem a natureza defensiva do texto, para concitar todos sem rejeições. O que importa é salientar que das quatro hipóteses na mesa, foram rejeitadas: (a) deixar falir a Grécia; (b) esperar pela criação de um Fundo Monetário Europeu; (c) levar os 16 da Zona Euro a criarem Eurobonds. Não interessa agora os méritos das rejeitadas, apenas a previsibilidade do artigo de De la Dehesa.

Um segundo exemplo, este de previsibilidade da Zona Euro: a falta de um sistema de regulação financeira e monetária supra nacional; a natureza sub-óptima da União Monetária; a ridícula dimensão do orçamento da UE; a escassa mobilidade de mão-de-obra na Europa; a fragilidade do PEC como mecanismo excessivamente pró-cíclico para substituir a ausência de estabilizadores automáticos; e finalmente a inexistência de uma cláusula de salvação final (bail-out) que criaria problemas em recessões assimétricas. Tudo previsível há mais de 15 anos. O que prova que a economia política é sempre mais previsível que a economia real, ou não fosse aquela, economia normativa.

 

António Correia de Campos, deputado ao Parlamento Europeu   



publicado por oresgatedosilencio às 17:28
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Segunda-feira, 22 de Março de 2010
A agenda

A agenda condiciona a política. Quem marca a agenda conduz o debate para os temas que lhe interessam. Só em acidentes, catástrofes, guerras e outros imprevistos a agenda é determinada por forças fora da arena.


Todos os políticos trabalham para condicionar a agenda. Uns melhor que outros. Os media têm algumas pretensões nesta matéria e ganharam a agenda em alguns dos últimos acontecimentos (Face Oculta, Freeport). Com a ajuda das cirúrgicas violações de escutas e dos sindicatos de magistrados e juízes. O Parlamento, trabalhando em diferido, raramente ganha a agenda. Por vezes os seus protagonistas bem fazem o possível. Até já tivemos recentes casos de personagens em queda de credibilidade, usarem o palco de uma comissão parlamentar para espectáculo. Resultou grotesco, apesar da permissividade ou inexperiência do presidente da comissão.

Um governo que consiga controlar a agenda, governa. É isso o que durante cinco anos enfureceu alguns media, até então habituados a derrubar governos (Guterres, Barroso, Santana Lopes). Maiorias relativas fragmentam o poder e as agendas são mais plurais na origem e mais pobres no conteúdo. É por isso que escasseando conteúdos que concorram em assertividade com os do Governo, alguns media tentam e conseguem arrastar alguma Oposição para a escatologia. Uma oposição que só alcança agenda nos pretensos escândalos, nunca será governo. É isso o que as sondagens lhe dizem, para desespero de comentaristas.

Oposições e media contra o Governo têm agora uma boa ocasião para se resgatarem da mediocridade: o novo inquérito parlamentar ao primeiro-ministro. Perdão, à "pretendida" compra de uma televisão por um grupo económico supostamente favorável ao Governo. Mota Amaral é um nome respeitado e creio que não tolerará espectáculo grotesco. No fundo o que a Oposição pretende é obter uma dissonância entre a declaração do PM no Parlamento e a realidade. Até hoje não vi colocado o problema do ponto de vista do interesse público: sabemos que os dirigentes da empresa compradora não haviam ainda informado o PM, eles declararam-no; admitamos que o PM sabia que algo andava no ar, por forças internas, certamente, paralelas às que teriam informado a líder da Oposição. Mas sem qualquer confirmação oficial, deveria o PM ter afirmado uma "verdade" que ainda não existia e que nem sequer veio a existir? Não, o seu dever era negar e foi isso o que fez. Por honra. Por carácter.


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António Correia de Campos, Deputado europeu pelo PS



publicado por oresgatedosilencio às 20:09
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Segunda-feira, 8 de Março de 2010
Semana aziaga

s coisas não vão bem em Bruxelas. O plano “Europa 2020” é acusado de não ultrapassar a versão revista e melhorada da Estratégia de Lisboa, agora com indicadores de execução. É injusto.


O plano é muito mais realista que o anterior e a motivação para o cumprir é agora bem maior que há dez anos atrás.

Dois factos perturbadores: a real falta de solidariedade da Comissão para com a Grécia e a reacção alemã. A Grécia foi obrigada, pela acção do Banco Central Europeu, pela pressão de Angela Merkel e pela omissão fria da Comissão a apresentar uma terceira proposta de ‘hara-kiri' financeiro, com elevados custos para a sua imagem e encorajamento de especuladores. Surpreende a falta de clareza dos reguladores europeus nas exigências iniciais, tolerando propostas tímidas e o silêncio de Barroso, apenas quebrado depois de consumada a rendição grega. Livremo-nos de passar por estes tratos e vexames! Quanto à Alemanha, a lentidão das reformas torna Angela Merkel saudosa da anterior coligação com os sociais-democratas. O seu actual vice-chanceler, Westerwelle, líder dos liberais democratas (FDP) gosta de declarações duras que provocam os sindicatos e a esquerda, sem nenhum progresso no terreno. A Segurança Social cresce em compromissos e estabiliza ou decresce em receitas, carecendo de reformas urgentes.

Um outro risco escondido começa a ser visível. O Reino Unido atingiu 12,0% de défice orçamental. A dívida total -a segunda maior a seguir ao Japão - atingiu 380% do PIB, a libra caiu para menos de dólar e meio e a taxa de juro dos seus empréstimos a dez anos alcançou os 4% (ainda assim, dois terços da taxa a que os gregos colocaram a dívida, a meio da semana passada). Esta situação só não é mais visível devido ao facto de a dívida ser maioritariamente tomada pelo Banco de Inglaterra, a localização em Londres das agências de notação e o Reino Unido não pertencer à Zona Euro. Um dia destes ainda veremos o rei nu.

Neste contexto pouco entusiasmante surge Van Rompuy. Rasmussen, líder do Partido Socialista Europeu, perante a passividade das Instituições Europeias, resolveu lançar a ideia de uma espécie de FMI, sob o comando técnico do Banco Europeu de Investimentos, para ajudar os países em falta a corrigirem amigavelmente os seus desequilíbrios. Ideia a carecer de muito trabalho técnico para transformar um banco de investimento em fundo regulador de países mal comportados. Mas Van Rompuy não se enleou em críticas técnicas. Baseou a negação liminar da ideia na falta de cobertura jurídica pelo Tratado de Lisboa. Amigavelmente acolhido na reunião com o Grupo dos Socialistas e Democratas depois dos insultos obscenos de Farage, nem se lembrou de matizar a sua reacção, gerando um magoado comunicado dos socialistas. O presidente do Conselho mostrou, ao menos, que não engana ninguém.


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António Correia de Campos, Deputado do PS ao Parlamento Europeu



publicado por oresgatedosilencio às 20:09
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Segunda-feira, 22 de Fevereiro de 2010
O falso crime

Os abutres vão ter que partir à procura de outros cadáveres. Voaram em círculos durante semanas, aproximaram-se agressivamente da presa, mas não a conseguiram isolar dos seus pares. A alegoria da lei da selva justifica-se, tal a agressividade dos protagonistas.


Tudo se reacende no crime hebdomadário de informação sem valor nem prova, arrancada a gravações avulsamente maquilhadas. Dignos representantes sindicais do pessoal de Justiça não aceitam o princípio da hierarquia das magistraturas. A líderança do maior partido da oposição, com a candura agressiva com que perdeu eleições e precipitou o seu partido num triunvirato romano pré-império, continua a praticar o insulto como arma preferida. As vestais imaculadas da comunicação, de honra perdida na guerra purificadora e exorcista a que se dedicaram, exibem artes histriónicas no cenáculo que as convida.

Perdida a razão, perdida a cabeça. Procurador-geral e Presidente do Supremo já não são dois insuspeitos altos magistrados, são apenas dois amigos de Sócrates, pelo só facto de discordarem da moldura penal de um zelota.

O mundo afinal não é como alguns gostariam. O crime contra o Estado de Direito nunca existiu. Sócrates não está ferido de morte. Afinal, os cidadãos parecem acreditar mais no Procurador e Presidente que em comentadores ávidos de protagonismo, mais em Sócrates que nos seus oponentes.

Tantos minutos perdidos de comunicação trovejante contra o Governo, tantas tiragens adicionais a satisfazer o prazer mórbido dos ‘voyeurs', tantas camisolas sem humor, tanta esperança de ver Sócrates vergado de opróbio! Tanta falta de coragem para o combate no terreiro constitucional! Tanto ódio derramado, tanta irresponsabilidade!

Sim, em plena crise económica internacional, em pleno ataque à capacidade de solvermos uma dívida feita de erros passados e bloqueios actuais, em crise de emprego e de modelo industrial, em pleno regresso cínico do ‘business as usual', os nossos líderes políticos alternativos mais não encontram como tema de luta que a agressão pessoal, a certidão de óbito antecipada, ou a disputa intestina de personalidades contentáveis com um terço dos votos possíveis.

Não são os únicos a surpreender. Ao longo dos últimos dois meses, a negociação para aprovação do Orçamento foi o intervalo lúcido numa vertigem sequencial de insanidades. Seguido do contraponto das finanças regionais, irresponsável mensagem às praças europeias.

Momentos houve para que candidatos à Presidência da República exercitassem o seu sentido de estado. O único que o fez, tenho que reconhecê-lo, foi o candidato incumbente, de linhagem política diferente da minha.

Estranhamente silencioso se manteve o candidato alternativo. Discordância, timidez, ou simples receio do risco? Tudo afinal o que se não esperaria de quem passou anos a esconjurar-nos contra medos.


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António Correia de Campos, Deputado do PS ao Parlamento Europeu



publicado por oresgatedosilencio às 20:06
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Segunda-feira, 8 de Fevereiro de 2010
Intervalo lúcido

Em 29 de Janeiro, na sua coluna regular do Times de Nova Iorque, Paul Krugman distinguia os verdadeiros falcões da luta contra o défice, dos ridículos pavões que pensam acalmá-lo, atirando ao lado ou disparando para o ar. Nada mais verdadeiro, mesmo em Portugal.


Claro que já conhecíamos uma ‘vulgata' de argumentos do tipo: a solução para o défice e a dívida é mais despesa social e melhores salários; a economia de baixa produtividade e salários e ordenados impossíveis de sustentar cura-se com menos tempo de trabalho semanal e reformas antecipadas sem penalização; a mesa do orçamento é infinita e os lugares de topo devem formar um cilindro ou até uma pirâmide invertida. Sim já conhecemos este tipo de argumentos. Conduzem a inexoráveis desastres, mesmo que o "tarefismo" terapêutico ganhe batalhas nas ruas e na contagem dos manifestantes.

À medida que se agudizam as contradições do nosso pequeno mundo, quando chegamos ao fim de um modelo económico, sem termos ainda os projectos do novo, tendem a surgir novos desconchavos: os líderes esquerdistas, perdidos na demagogia, que acusam o Governo de despesismo e votam a favor de mais dinheiro para a Madeira; os que passaram a vida a criticar o Governo pela alta velocidade, aeroporto e auto-estradas e, salvo raras excepções, não têm uma palavra sobre o desbragamento despesista do dirigente madeirense; os que acham que Jardim é gastador compulsivo, mas entendem que se deve fechar os olhos a mais cinquenta milhões a crescerem anualmente, sobre uma dívida acumulada de 1200 milhões; os que enredados e paralisados pela pequena aranha partidária pretendem virar suprapartidários ou talvez mesmo independentes; os que se especializaram no tiro ao alvo ao governo e reduzidas as audiências por cansaço, inventam perseguições procurando os juros da vitimização; e até não faltam os gurus televisivos que nada sabendo, dão opinião magistral sobre tudo.

A doença não escolhe partidos nem ideologias. Também grassa entre os meus amigos: os que, dada a ordem para negociar, acham que tudo é negociável, sem limites de coerência nem decência; ou os que descobrem prazer em temas laterais obtusos, como o ‘strip-tease' fiscal.
Perante crescentes sinais de insanidade, sabe bem encontrar quem se não encante com cânticos de sereia e resista à incoerência e ao disparate. Mesmo quando vindos dos que devendo defender o Estado, arrasam a sua reputação, protegendo despesismos recorrentes com o falso argumento de que se trata de migalhas. Não será possível prolongar o intervalo lúcido que nos trouxe, ao menos, a esperança de um orçamento?


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António Correia de Campos, Deputado do PS ao Parlamento Europeu



publicado por oresgatedosilencio às 20:06
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Segunda-feira, 25 de Janeiro de 2010
O candidato do Bloco

Tal como se esperava, Alegre manifestou-se disponível para avançar com a sua candidatura presidencial.


Nenhuma onda de optimismo varreu o país, por agora. Mais uns jantares, por enquanto com quase desconhecidos. No PS, Assis cumpriu o ‘script' com simpatia, afirmando ser ainda cedo para declarações formais. Seguro, olhos postos no futuro, resolveu dar um passo em frente. Vitorino, oficioso ou não, mas sem simpatia, urge o PS a definir-se, sem que nos diga como. Tende-se a concordar com ele, excepto no ‘timing'. Temos tempo. São já conhecidos alguns apoios, "sempre os mesmos" para usar a expressão com que Alegre causticou os seus oponentes. São também conhecidos alguns dos que já declararam que pelo menos não o acompanhariam até Belém.

Alegre é, neste momento, "o candidato do Bloco de Esquerda". Duvida-se que tenha trânsito ao centro e menos ainda à direita. Quando fala na Pátria vem-me à memória o Alegre de 1964, quando questionava os patrioteiros do Salazarismo: "A Pátria? a Pátria somos nós!". Partidas da história. Claro que aspira a ser o candidato do PS. Tem algumas probabilidades de o conseguir, apesar de lhe fugir o pé para a permanente dissensão: os seus críticos no PS "são sempre os mesmos". Ora, quem quer unir, não pode começar por tratar os desagradados como minoria de refugo. Com défice de tolerância não vai unir a si o PS, pretende arrastá-lo, mesmo pelos cabelos, para a sua gloriosa arrancada. Pode o PS aderir a contragosto, mas tal não significa que os eleitores do PS adiram. Vale aqui, para o seu caso, a partida que os eleitores pregaram ao PS, na última candidatura do dr. Mário Soares.

Joana d´Arc e De Gaulle "ouviam vozes". Há sempre quem nos queira convencer de que responde a um apelo interior. É desta massa que nascem os mitos. Só que a situação não está para fantasias. Temos problemas imediatos e difíceis, não temos em frente de nós uma planura para despiques e correrias. Temos quem está, muitas vezes pouco bem, mas está e vai melhorar. Se Alegre quer experimentar a lança que o faça nesse torneio, nos próximos doze meses. Que considere Cavaco o seu adversário, não Sócrates, os soaristas ou o PS relutante.

Que mostre arreganho, conhecimento, engenho e também tolerância para os seus amigos discordantes. Que nos fale de coisas terrenas, com estatísticas, não com mitos. Que nos diga se nos propõe estimular o Governo a controlar o défice e a dívida, ou se não trata dessas miudezas. Se vai valorizar a inovação, o risco, a competitividade, o espírito empreendedor, ou se acha que a solução da crise está em aumentar a despesa social.

Provavelmente não convencerá uma maioria, mas terá cumprido uma missão.


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António Correia de Campos, Deputado ao Parlamento Europeu



publicado por oresgatedosilencio às 20:04
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